ANACÉ NO LITORAL CEARENSE

 

Recuar ao século XVII para contar a história do povo Anacé significa examinar um dos períodos mais violentos e determinantes de sua trajetória. É a era em que as dinâmicas ancestrais desse povo guerreiro colidiram frontalmente com as frentes de invasão luso-holandesas e o avanço dos currais de gado, forçando as bases do que viria a ser o seu reordenamento espacial e social na Capitania do Siará Grande.

1. Localização Geográfica no Século XVII

Durante o século XVII, os Anacé ocupavam uma vasta extensão de terras baixas, matas de tabuleiro, restingas e dunas no litoral Oeste cearense. Suas terras estendiam-se muito além dos limites atuais, cobrindo o leste do Rio Curu, as imediações do Rio Cauípe e as áreas de transição que ligavam a costa até as proximidades da Serra da Ibiapaba. Eles dominavam pontos estratégicos de acesso a lagoas costeiras e zonas estuarinas fundamentais para o controle territorial.

2. A Cultura e a Vida Cotidiana Antiga

Nesse período, os Anacé organizavam-se em aldeamentos semi-itinerantes, intimamente conectados com os recursos sazonais da região:

  • Modo de Vida: A vida cotidiana baseava-se na caça de animais de mata de tabuleiro, na pesca artesanal e em uma agricultura de coivara (limpeza da terra com fogo) focada no cultivo do milho e da mandioca.

  • Sociedade Guerreira: Descritos na literatura colonial (como nos relatos do Padre Antônio Vieira e, posteriormente, do historiador Carlos Studart Filho) como um povo de forte tradição guerreira e exímios arqueiros, os Anacé possuíam uma organização social rígida voltada para a defesa do território e das rotas de circulação.

  • Espiritualidade e Parentesco: Os laços de parentesco organizavam as alianças internas e a relação com o território se dava em uma dimensão cosmopolítica: a mata não era apenas fonte de recursos, mas a morada de antepassados e guias espirituais que sustentavam as suas decisões de guerra ou refúgio.

3. Os Invasores Europeus e os Parceiros na Região

O século XVII no Ceará foi marcado pela disputa geopolítica entre duas grandes potências coloniais europeias, transformando o território Anacé em um tabuleiro de guerra:

  • Os Invasores: Primeiramente, os portugueses tentavam consolidar a ocupação da capitania a partir do Forte de Santiago (posteriormente Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção). Em meados do século, os holandeses invadiram o litoral cearense (erguendo o Forte Schoonenborch) em busca de alianças e controle econômico (sal, âmbar e rotas comerciais). Ambos os impérios viam os Anacé como um obstáculo ou como massa de manobra militar.

  • Parceiros e Alianças Oscilantes: Para resistir à escravização e ao extermínio, os Anacé estabeleciam alianças estratégicas e temporárias. Em dados momentos do século XVII, uniram-se a outras etnias da "Nação Kariri" ou aos próprios holandeses para combater a violência e a imposição da Coroa Portuguesa. No final do século, os missionários jesuítas surgem como agentes ambíguos: ao mesmo tempo em que tentavam "proteger" os indígenas da violência direta dos colonos, faziam-no por meio do confinamento e do apagamento cultural nos primeiros aldeamentos missionários.

4. As Lutas na Área (Resistência a Ferro e Fogo)

Os Anacé impuseram severas derrotas aos planos coloniais portugueses. Devido à sua recusa em submeter-se ao novo reordenamento e ao avanço das sesmarias (terras doadas para a pecuária), a resposta da Coroa foi de extermínio:

  • Em 1666, o capitão-mor Mello de Gusmão ordenou uma violenta guerra oficial contra os Anacé, com diretrizes de agir "a ferro e fogo", executando as lideranças e homens em idade de pegar em armas.

  • A resistência continuou ativa e violenta. Os Anacé e povos aliados desfecharam ataques pesados contra os núcleos coloniais litorâneos, incluindo a destruição histórica de estruturas em Aquiraz (então sede da capitania), gerando pânico entre os colonizadores e duras represálias militares.

  • Em 1694, o mestre de campo Fernão Carrilho sitiou militarmente parte do povo Anacé a poucas léguas ao norte da Fortaleza, tentando sufocar definitivamente os seus focos de levante no litoral.

5. O Deslocamento Inicial para São Gonçalo do Amarante

Diferente do reassentamento industrial contemporâneo (ocorrido na década de 1990 devido ao Porto do Pecém), o deslocamento e fixação dos Anacé na área de São Gonçalo do Amarante começou a desenhar-se entre o final do século XVII e o século XVIII como uma consequência direta dessas guerras e da política de aldeamentos jesuíticos.

Como o litoral Oeste sofreu uma violenta partilha de terras para a expansão da "civilização do couro" (a pecuária), os Anacé sobreviventes das investidas de Mello de Gusmão e Fernão Carrilho foram paulatinamente encurralados, perdendo o acesso livre às praias e sendo empurrados para o interior dos tabuleiros e margens de rios na região que hoje compreende o município de São Gonçalo do Amarante. Essa concentração forçada em missões religiosas deu origem histórica ao antigo povoado de Anacetaba ("Aldeia dos Anacés"), topônimo que batizou oficialmente o município de São Gonçalo do Amarante por décadas na metade do século XX, servindo como testemunho geográfico e histórico da fixação compulsória e da resiliência secular desse povo na região.

FONTES DE PESQUISA

Para estruturar os dados históricos, antropológicos e geográficos sobre o povo Anacé nos séculos XVII e XXI, utilizei como base o conhecimento consolidado a partir das seguintes fontes de pesquisa de referência na historiografia e na etnologia cearense:

1. Fontes Historiográficas e Relatos Missionários (Século XVII e XVIII)

  • Relatos de Missionários Jesuítas (Padre Antônio Vieira e outros): Cartas e crônicas do século XVII que descrevem a ocupação indígena no litoral cearense, os conflitos com os colonizadores e o início das missões de catequese.

  • STUDART FILHO, Carlos: Os Índios do Ceará (1965) e Notas para a História do Ceará (1947). Obras clássicas da historiografia cearense produzidas pelo Instituto do Ceará (IHC), que documentam as ações militares de capitães-mores como Mello de Gusmão e as expedições de Fernão Carrilho contra os Anacé e etnias aliadas no litoral oeste.

  • Anais e Revistas do Instituto do Ceará: Documentos oficiais da administração colonial, concessões de sesmarias e registros de fundação de vilas e antigos distritos (como os registros históricos sobre a antiga denominação de Anacetaba, atual São Gonçalo do Amarante).

2. Estudos Antropológicos e Laudos Técnicos (Séculos XX e XXI)

  • Relatórios Técnicos de Identificação e Delimitação (RTID) da FUNAI: Estudos de natureza antropológica, histórica e cartográfica coordenados pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas para o reconhecimento da identidade e do território Anacé.

  • Dissertações e Teses da Universidade Federal do Ceará (UFC) e Universidade Estadual do Ceará (UECE): Pesquisas acadêmicas contemporâneas dos departamentos de História, Ciências Sociais e Geografia que analisam os impactos socioambientais da construção do Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP) sobre as comunidades indígenas de Caucaia e São Gonçalo do Amarante.

3. Documentos de Defesa de Direitos e Movimentos Sociais

  • Conselho Indigenista Missionário (Cimi - Regional Nordeste): Relatórios anuais de violência contra os povos indígenas e dossiês sobre o processo de reassentamento e a criação da Reserva Indígena Taba dos Anacé.

  • Notas Públicas e Ações Civis Públicas do Ministério Público Federal (MPF-CE): Documentação jurídica referente à mediação de conflitos territoriais causados pela instalação de indústrias, termoelétricas e gasodutos no território tradicional Anacé.